Sempre achei que os grandes jogadores quando acabam as suas carreiras deveriam encarar o dirigismo como uma saída viável, em vez de simplesmente errarem pelos bancos ou por microfones ocasionais.
Alguém que jogou ao mais alto nível durante quinze anos não está de repente capacitado para dirigir um clube ou um departamento de futebol. Mas por certo essa experiência não é uma contra-indicação. Em Portugal parece que sim.
Não sei se Rui Costa terá, neste momento, as condições essenciais para assumir o futebol deste Benfica. Nem sei se alguém as possui, para ser sincero. Mas sabe certamente mais sobre o tema do que, por exemplo, Luís Filipe Vieira quando foi chamado por Manuel Vilarinho para esse papel, há uns anos.
Por tudo se passar no Benfica e com um dos melhores jogadores portugueses de sempre, a nova vida de Rui Costa será analisada ao pormenor durante os próximos meses. Isso não é bom, nem mau, apenas inevitável. A pressão estará lá.
A grande vantagem de ter à frente do futebol alguém que sabe é reduzir a margem de erro. Sejamos claros. Rui Costa poderá não ter grande experiência em negócios, mas viveu anos no futebol italiano, no patamar mais alto do futebol mundial. Sabe como pensam jogadores, treinadores, empresários e dirigentes a esse nível. E conhece muitos deles.
Depois, também sabe lidar com a pressão sempre associada aos grandes clubes. Certamente detectará cedo os maus sinais quando algo não vai bem num grupo. Afinal, os balneários pouco diferem, num tempo em que os jogadores circulam a alta velocidade entre países.
Mais importante, Rui Costa sabe que uma equipa se forma com tempo. Se o exemplo for o Milan, o Benfica pode preparar-se para tempos de estabilidade. Na Luz, o tempo tem sido um bem escasso porque as expectativas em cada início de temporada nunca estão de acordo com a realidade e os meios disponíveis. O que não raro conduz a becos.
Ao contrário do que tem sido pensamento comum no Benfica dos últimos anos, a peça mais importante num clube não é o treinador. Aliás, quanto mais organizada e forte for a estrutura menos dependente estará dos humores, forças e fraquezas de quem se senta no banco.
A primeira tarefa de Rui Costa será formar uma equipa forte. Não no relvado, mas na SAD. É improvável que o Benfica tenha condições, hoje em dia, para fazer tudo o que precisa ao mesmo tempo. Porque estas coisas demoram, mas sobretudo porque permitiu que o F.C. Porto ganhasse enorme vantagem.
Além dos conhecimentos futebolísticos, Rui Costa demonstrou ser, nestes anos de exposição pública, uma pessoa séria e alguém que gosta profundamente de futebol e do Benfica. São bases muito boas para começar a nova carreira.
Se Carlos Queirós ajudou os «professores de ginástica» a sentarem-se nos bancos e José Mourinho abriu as portas a uma nova geração de treinadores, Rui Costa poderá ser a prova de que em Portugal os grandes ex-jogadores também podem mandar. Um caminho que Pedro Barbosa e Vítor Baía, por exemplo, começaram a percorrer mais devagar, mas que o «10» andará em passo acelerado.
P.S. : No dia em que completa 36 anos, parabéns a Rui Costa. Além da qualidade futebolística, foi ao longo destes anos um verdadeiro exemplo. Se conseguir manter-se fiel a essa forma de estar no futebol acabará por ter sucesso como dirigente.
Retirado do blog Sobras
